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A importância da Teoria da Mudança para criar projetos de impacto

Atualizado: 10 de ago. de 2022

A situação econômica, brasileira e mundial, é desafiadora . Crises de desabastecimento, inflação e guerras, amplificaram o cenário de pós-pandemia de Covid-19 e isso coloca uma pressão ainda maior sobre as organizações sociais que lutam para manter as contas em dia. Sem dúvida, uma das primeiras demandas que recebo como consultor é para atuar na ampliação da captação de recursos por meio da criação de planos efetivos.

Entretanto, muitas vezes, a captação não se beneficia de uma estratégia comercial mais agressiva, pois os “produtos sociais” que estas organizações estão oferecendo ao potencial financiador não estão adequados às demandas ou então carecem de uma visão mais ampla para entender os possíveis impactos do seu trabalho. Minha resposta para estas organizações é sempre a mesma: "por que o seu projeto é importante para o patrocinador?".

Pode parecer um choque, mas as respostas que se seguem não são as melhores e uma investigação mais aprofundada mostra que houve pouca reflexão na construção do projeto. A saída para isso é a construção de uma Teoria da Mudança.

A Teoria da Mudança é uma forma de descrever a mudança que um projeto promoverá no mundo (ou ao seu redor), definindo os objetivos e estruturando os resultados intermediários, bem como os passos e os recursos necessários. Uma Teoria da Mudança não se desenha ou estabelece de forma independente, a mudança pretendida é fruto do trabalho conjunto de muitos atores em um prazo médio ou longo e é necessária a compreensão de que a Teoria da Mudança é em si um mapa. Como um mapa, é possível traçar a origem e o destino, estabelecendo métricas ou pontos de referência.

Se a observarmos como um mapa podemos entender a razão de existirem diversos modelos criados da Teoria da Mudança. Temos mapas políticos, hídricos, demográficos, topográficos, geográficos, entre outros, e cada um deles transmite informações destacadas para um determinado objetivo. Com a Teoria da Mudança ocorre da mesma forma.

Para exemplificar, apresento abaixo dois links que mostram essas divergências:

Desejo mostrar o modelo que nós, na Eixo Social, adotamos em nossos projetos e um pequeno passo a passo para sua criação. Para começar, precisamos das mentes das pessoas que querem a mudança, nossos stakeholders, e com elas definir, definir a mudança, ou melhor o impacto.

Como pode ser visto no quadro, são cinco as etapas a serem percorridas, começando o preenchimento pelo Impacto. Se o impacto for descrito de forma significativa, apenas um impacto é mais do que suficiente para uma teoria da mudança complexa, mas vou detalhar todos os passos que são, necessariamente, encadeados, ou seja, um impacto depende de um ou mais resultado, que depende(m) de um ou mais produtos e assim em diante.

  1. Impacto / Mudança – É a mudança que queremos ver na sociedade, fruto do trabalho da equipe de projeto e de mais atores que se alinhem estrategicamente a ele. Não é o resultado em si da atividade, mas o que este resultado causa na sociedade. Por exemplo, se eu trabalho com educação, um impacto desejado pode ser uma comunidade mais coletiva, compreensiva e reflexiva sobre suas necessidades. Isto vai além do letramento ou numeramento como técnicas.

  2. Resultados / Outcomes – São os resultados que nossos esforços geram para a sociedade. Enquanto o projeto é feito para um impacto, os resultados podem ser diversos. Seguindo o exemplo da educação, os resultados podem ser um determinado índice de letramento, de numeramento, de acessibilidade, de criminalidade, de emprego (e/ou renda) e por aí vai. Os resultados podem, de acordo com o projeto, ser subdivididos em médio e longo prazo. Caso haja esta subdivisão, os produtos geram resultados de médio prazo que acabam por gerar resultados de longo prazo.

  3. Produtos / Outputs – É aquilo que é ofertado ao público impactado pelo projeto e que, por consequência, gerará os resultados. Quando olhados pela ótica do captador, fica mais fácil entender como o produto sendo aquilo para o qual os recursos são captados. Normalmente são vários produtos, mas segue a lógica da organização, lembrando que uma mudança sistêmica na sociedade não é fruto de uma ação isolada. Ainda no exemplo da educação, podemos pensar em formação socioeducacional, cursos de numeramento e letramento, fruição cultural, educomunicação, capacitação profissional, redes escolares, desenvolvimento comunitário etc.

  4. Atividades – Aqui olha-se para dentro da organização para definir as linhas estratégicas de atuação que para não serem confundidas com os produtos, precisam ser pensadas de forma macro a partir dos produtos, ou seja, formação de pessoas, produção de conhecimento, articulação local e coisas que possibilitem produtos. Veja que dentro de formação de pessoas podem existir diversos tipos de formação, mas quando se define formação como uma atividade, serão necessárias diversas competências institucionais a despeito do curso oferecido.

  5. Insumos / Inputs – Talvez o lugar comum da Teoria da Mudança, os insumos se referem a tudo aquilo necessário para colocar o projeto em prática. Falamos de recursos financeiros, parcerias, pessoas e competências, modelo de gestão a ser praticado ou mesmo a mentalidade a ser praticada.

A Teoria da Mudança é uma ótima metodologia para se construir uma organização e permite que os projetos desenvolvidos estejam vinculados diretamente ao “core”, à missão da organização. Entretanto, a Teoria da Mudança também oferece riscos quando elaborada de maneira superficial, sem discussão aprofundada, ou de forma muito abrangente, pois assim qualquer projeto se encaixa (tudo serve para alguma coisa e perdemos o foco).

Os ganhos são claros e muitos! O primeiro e mais proeminente deles é a orientação ao processo decisório, pois é de fácil identificação se um projeto ou iniciativa se encaixa na mudança desejada. O segundo é o estabelecimento de métricas de resultado temporais que permitem acompanhar o avanço da instituição frente ao desafio. Outros benefícios podem ser considerados, por exemplo: a) a otimização de tempo e recursos (humanos e financeiros); b) o estabelecimento de um eixo comum para todos na organização (e, consequentemente, expectativas realistas sobre o projeto) e; c) uma governança compartilhada por meio de uma proposição de geração de valor pública que pode ser criticada e revisada.

Mas por que nem todas as organizações ou projetos sociais possuem uma Teoria da Mudança? O estabelecimento de uma Teoria da Mudança requer dedicação e reflexão semelhantes a um planejamento estratégico, coisa mais conhecida por todos. Este mapa final criado será útil para a gestão do projeto, da organização e da equipe que verá algo a mais no desenvolvimento do trabalho. É como aquela velha história contada pelas equipes de RH:

“Uma pessoa caminhava observando o trabalho dos pedreiros próximo a sua casa. Em determinado local, três homens faziam o mesmo trabalho. Curiosa, a pessoa aborda a primeira pessoa e pergunta o que estava sendo feito e ouve: ‘Estou empilhando tijolos, não está vendo?´. Não satisfeito com a resposta, continuou caminhando pela construção até parar próximo ao segundo homem e repetir a pergunta. ‘Estou construindo uma parede’, disse o pedreiro. Instigado pelos pontos de vista tão distintos para a mesma função, resolveu se dirigir ao último pedreiro, que possuía um olhar diferente no rosto e responde: ‘Estou construindo uma igreja’”.

Artigo escrito por Mauricio Guimarães em 08/08/2022.

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